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O que muda para a clínica quando o medicamento vira metade do faturamento?

Vitor Rehbein··6 min de leitura
Vitor Rehbein de terno claro em evento do setor de saúde

Quando o medicamento vira metade do faturamento, muda a natureza do negócio. A clínica deixa de ser um serviço que usa insumo e passa a ser uma operação de distribuição com consulta anexa. Isso muda quatro coisas de uma vez: a margem de contribuição cai, o capital de giro vira o gargalo, o estoque passa a ser a maior linha do patrimônio e o fornecedor começa a definir o seu preço. Nenhuma das quatro aparece no faturamento — e o faturamento é justamente a única que continua subindo.

Não é que a decisão esteja errada. Protocolo com medicamento caro aumenta ticket, aumenta aderência e resolve o problema do paciente. O problema é operar uma distribuidora com a contabilidade de um consultório.

Qual é o peso normal do medicamento no faturamento de uma clínica?

Nas medianas da carteira — 38 planilhas de DRE gerencial, 283 meses de operação — a linha de materiais e medicamentos fica em 18% do faturamento, com faixa de 15% a 26%. No mesmo agregado, o repasse médico é 31%, imposto 8%, taxa de cartão 3% e a margem de contribuição mediana é 42%. O custo fixo fica em 23%.

Olha a faixa com atenção: 26% é o topo. Uma clínica em que o medicamento é metade do faturamento não está no extremo da faixa — está fora dela. Isso não é variação de modelo, é outro modelo de negócio, e a conta que fechava antes não fecha mais pelos mesmos motivos.

O que acontece com a margem de contribuição quando o medicamento dobra de peso?

Cada ponto que a linha de medicamento sobe sai inteiro da margem de contribuição. Não existe outra linha absorvendo isso. Sair de 18% para 50% são 32 pontos percentuais de margem que foram embora — e a margem de contribuição mediana da carteira inteira é 42%.

Ou seja: o deslocamento é da mesma ordem de grandeza de toda a margem que a clínica tinha. Para o resultado continuar de pé, alguma outra coisa tem que ceder — o preço sobe, o repasse cai, o custo fixo encolhe ou o fornecedor melhora. Se nada ceder, a clínica fatura mais e sobra menos, e o dono descobre isso quando precisa comprar.

Dá para ver isso no nível da venda. No painel de uma clínica, uma dosagem específica aparecia com 12% de margem — girando volume, vendendo bem, e deixando 12%. E margem de contribuição é a régua de qualquer decisão: pegue um custo e divida pela margem de contribuição para saber quanto de faturamento ele exige.

Vamos supor um custo fixo de R$ 50 mil. Com 40% de margem de contribuição, a clínica zera com R$ 125 mil de venda. Com 12%, precisa de mais de R$ 400 mil para fazer a mesma coisa. É a mesma estrutura, o mesmo aluguel e a mesma equipe — e um ponto de equilíbrio três vezes maior.

Por que o rateio de custo fixo deixa de resolver quando o medicamento domina a venda?

Porque o rateio é um valor por venda, não um percentual. Vamos supor que o rateio de custo fixo da sua clínica deu R$ 350. Para vender uma dose, são R$ 350. Para vender dez, são os mesmos R$ 350.

Isso é uma boa notícia e é a razão pela qual tratamento maior pode custar menos por mês para o paciente: o custo fixo se dilui. É a lógica do atacado — quanto maior o tratamento, menos o paciente paga por mês.

Só que a diluição tem limite, e o limite é a estrutura. Quando o medicamento é metade do faturamento, a venda maior não traz mais estrutura para diluir: traz mais insumo para comprar. O que cresce não é margem, é necessidade de capital de giro. E capital de giro não aparece na DRE — aparece no banco, na forma de dinheiro que não está lá na hora da compra.

É esse o diagnóstico que as três DREs separam. Déficit na DRE gerencial é operação abaixo do ponto de equilíbrio ou erro de precificação. Déficit na DRE financeira é ineficiência de compra ou necessidade de capital de giro. E a DRE de estoque apura o que vem de fora: furto, fornecedor que não entregou, ficha técnica errada.

Por que a clínica que depende de um medicamento perde o controle do próprio preço?

Porque a sua margem fica espremida entre um custo que você não negocia e um preço que o paciente já conhece. Ele viu a tabela, ele ouviu o valor do amigo, ele pesquisou. A clínica que vende medicamento compete em transparência de preço de varejo, com estrutura de custo de clínica.

Vocês vendem tratamentos. Quem vende medicamento é farmácia.

Tem ainda o risco de concentração, que é o mais caro e o menos medido. Quando um único produto é metade da receita, qualquer movimento externo atinge metade do faturamento de uma vez: o fornecedor reajusta, entra um similar mais barato, aparece uma molécula nova, muda uma regra, falta estoque no mercado. A clínica não perde uma linha de receita — perde meia empresa.

E o estoque passa a ser risco patrimonial, não detalhe operacional. Nessa escala, um desvio mensal de estoque é facilmente mais caro do que o salário de alguém contratado só para controlar estoque. A decisão de contratar esse controle deixa de ser despesa e passa a ser proteção de patrimônio — e a conta é a mesma de sempre: custo dividido pela margem de contribuição.

O que a clínica precisa medir quando o medicamento é metade da venda?

Cinco números, e nenhum deles é faturamento:

  • Margem de contribuição por dosagem e por protocolo, não da clínica inteira. É no detalhe que aparece o item que vende muito e deixa pouco.
  • As três DREs separadas — gerencial, financeira e de estoque — porque com essa concentração elas divergem muito, e a divergência é a informação.
  • Giro de estoque e cobertura em dias, para saber quanto do seu dinheiro está parado em geladeira.
  • Peso do maior produto no faturamento, mês a mês, com um teto declarado. Concentração sem teto é decisão por omissão.
  • Capital de giro da próxima compra, provisionado antes de qualquer retirada.

E vale a pergunta de posicionamento, que é de médio prazo: o paciente está comprando o medicamento ou está comprando o resultado? Clínica que vende resultado consegue trocar a molécula quando o mercado muda. Clínica que vende a molécula vira revendedora, e quem vende molécula vai ser engolido pela próxima tecnologia que chegar.

Abre o seu último mês fechado e calcula uma coisa só: quanto por cento do faturamento foi medicamento. Se passou de 26%, você já saiu da faixa em que a conta de uma clínica fecha — e a pergunta deixa de ser quanto você vendeu, e passa a ser quanto do que você vendeu era seu.

VR
Vitor RehbeinTime bmo

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