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Por que vender plano anual de emagrecimento pode quebrar a clínica?

Vitor Rehbein··6 min de leitura
Vitor Rehbein sorrindo durante apresentação em evento

O plano anual de emagrecimento não quebra a clínica por ser plano anual. Quebra quando o dinheiro dos doze meses entra antes da entrega, o medicamento dos doze meses ainda não foi comprado, o saldo do banco sobe acima do lucro — e o dono retira olhando para o saldo. Quando chega a hora de comprar a aplicação do oitavo mês, o dinheiro já saiu. Não é erro de produto, é erro de leitura.

E é importante deixar isso claro antes de qualquer coisa: não é para parar de vender plano anual. Plano anual segura o paciente no tratamento, melhora o resultado clínico, reduz a dependência de lead novo e dilui o custo fixo numa venda maior. É uma boa decisão de negócio. Só que ela exige duas coisas que a clínica normalmente não faz: reconhecer a receita ao longo da entrega e separar o custo de entrega que pertence ao mês da venda do custo que pertence aos meses seguintes.

O que acontece com o caixa da clínica no mês em que ela vende um plano anual?

Entra quase tudo. O paciente paga à vista ou parcela no cartão, e a clínica recebe — se antecipa, recebe na hora. A entrega, por outro lado, acontece devagar: o paciente vai aplicando semana a semana, e a clínica compra o medicamento conforme ele usa.

Então o mês da venda tem receita cheia e custo de insumo de um mês. E os onze meses seguintes têm receita zero daquele paciente e custo de insumo cheio. Na prática, você recebe o dinheiro e depois compra o medicamento para ele aplicar. Esse é o fenômeno: o dinheiro aparece no saldo bancário e aquilo não é lucro.

Com um paciente, dá para administrar de cabeça. Com quarenta planos vendidos em três meses, não dá. A clínica entra num período em que o saldo sobe todo mês, o dono se sente folgado, e a obrigação de compra que está vindo atrás não está escrita em lugar nenhum.

Por que o saldo bancário sobe acima do lucro quando a clínica vende plano anual?

Porque saldo e lucro medem coisas diferentes, e o plano anual separa as duas no tempo. É aqui que a diferença entre as DREs deixa de ser assunto técnico e passa a ser assunto de sobrevivência.

  • DRE financeira: apura o custo daquilo que foi comprado no mês. No mês da venda do plano, você comprou pouco.
  • DRE gerencial: apura o custo daquilo que foi vendido, pela ficha técnica. É ela que mostra o lucro do modelo de negócio.
  • DRE por estoque: estoque inicial mais compras menos estoque final, confrontado com a venda. É onde aparece desvio, fornecedor que não entregou e ficha técnica errada.

Uma clínica de R$ 450 mil por mês apurava, na leitura financeira, 51% de margem de contribuição e 41% de lucro. Na leitura gerencial, com o custo do que foi efetivamente entregue, a mesma clínica tinha 33% de margem e 22% de lucro. A diferença entre as duas leituras dava R$ 85 mil de buraco. Mesmo mês, mesma clínica, mesma conta bancária — e duas conclusões opostas sobre quanto podia sair de dinheiro.

Pior que você não vender é você confundir saldo bancário com lucro.

Vale lembrar como as empresas grandes tratam isso: companhia listada em bolsa distribui em maio o lucro do ano anterior, depois de apurado e auditado. Não existe empresa que distribui lucro todo mês. A clínica que vende plano anual e retira pelo saldo está fazendo exatamente o oposto do que faz quem tem o resultado sob controle.

Como reconhecer a receita do plano anual ao longo da entrega?

Dividindo a venda pelo prazo de entrega na DRE gerencial. Vamos supor um plano de doze meses vendido por R$ 24 mil: entram R$ 2 mil de receita por mês, pelos doze meses, junto com o custo variável daquele mês. O que já entrou no caixa e ainda não foi entregue continua existindo — só que como obrigação, não como resultado.

Caixa continua sendo caixa: o dinheiro está lá, você consegue usar. A diferença é que agora você sabe que ele tem dono. É isso que permite responder a única pergunta que importa no fim do mês: quanto desse saldo é meu?

Esse é o furo do método de separar um percentual fixo de tudo que entra como se fosse lucro. O que a clínica paga naquele mês não é o custo real da operação daquele mês. O custo real chega depois, quando o estoque acaba e é hora de comprar — e nessa hora a pergunta é onde está o dinheiro.

Como provisionar o custo de entrega de um plano anual já vendido?

A regra de divisão é curta: o paciente paga o rateio de custo fixo do mês em que a venda acontece — um mês, não doze — e o custo variável de todos os doze meses, que é medicamento, seringa, agulha, exame de acompanhamento e consulta de retorno. Essa é a conta de preço. O que vem a seguir é a conta de caixa, e é ela que decide se a clínica atravessa o ano.

Provisionar é transformar o custo variável dos meses que faltam em obrigação declarada, plano por plano. Na prática, três colunas por plano aberto resolvem:

  • Quanto já entrou daquele plano, considerando parcela e antecipação.
  • Quanto de insumo já foi comprado para aquele paciente até hoje.
  • Quanto de insumo ainda falta comprar até o último mês do plano, em reais e por mês de aplicação.

A soma da terceira coluna é o número que precisa estar separado. Esse dinheiro não é lucro, não é retirada e não entra em orçamento de investimento nem de reforma. Ele já tem destino, e o destino é o fornecedor.

Com a terceira coluna aberta por mês de aplicação, você também ganha a agenda de compra: quanto a clínica vai precisar desembolsar em janeiro, em fevereiro, em março, independente do que ela vender nesses meses. É esse calendário que mostra, com antecedência, em qual mês o plano vendido hoje vai pedir dinheiro de volta.

Por que a renovação não acontece e a indicação passiva cai no ano seguinte?

Dois efeitos chegam juntos, e quase sempre pegam a clínica de surpresa.

O primeiro é a renovação. O paciente que pagou doze meses adiantado não tem nenhuma decisão de compra para tomar nos onze meses seguintes. A clínica perde a conversa mensal que naturalmente puxava a próxima venda. Sem uma régua de pós-venda que comece antes do fim do plano, o plano simplesmente termina e ninguém vai atrás.

O segundo é a indicação. Na maior parte das clínicas de emagrecimento, o canal principal é indicação — e indicação passiva, a indicação que acontece sem trabalho nenhum, é função direta de quantos pacientes novos entraram. Quando a agenda do ano já está vendida, a pressão comercial cai, o time para de prospectar porque "já vendeu", e a entrada de paciente novo diminui. Doze meses depois a indicação diminui junto, porque não havia ninguém novo para indicar.

O conserto é anterior ao problema. Régua de renovação disparando no nono mês do plano, com proposta já calculada. E indicação ativa no lugar da passiva: o paciente bom recebe um motivo concreto para trazer alguém, em vez de a clínica esperar que ele lembre.

Abre a sua base de planos anuais vendidos e separa por mês de vencimento. Para cada plano que termina nos próximos 90 dias, duas perguntas: quem é o responsável por fazer a proposta de renovação, e em que data ela vai ser feita. Se nenhum nome e nenhuma data aparecerem, a sua clínica não vendeu um ano de receita — adiantou um ano de receita, e o ano seguinte está em branco.

VR
Vitor RehbeinTime bmo

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