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Qual a diferença entre DRE gerencial, DRE financeira e DRE de estoque?

Vitor Rehbein··6 min de leitura
Palestra com painel de indicadores financeiros projetado na tela

A diferença entre as três DREs está em uma linha só: materiais e medicamentos. A DRE gerencial lança o custo daquilo que foi vendido, puxado pela ficha técnica de cada venda — é a que mostra o lucro do modelo de negócio. A DRE financeira lança o custo daquilo que foi comprado no mês, inclusive o que ainda não foi pago — é a que mostra se a compra foi eficiente e se a clínica precisa de capital de giro. A DRE de estoque confronta estoque inicial mais compras menos estoque final com o que a clínica vendeu — é a que acha o que sumiu. Faturamento, imposto, repasse, cartão e custo fixo são iguais nas três.

Parece detalhe técnico e não é. É a diferença entre saber que a clínica tem lucro e achar que tem.

O que a DRE gerencial mostra que as outras não mostram?

O lucro do modelo de negócio. A DRE gerencial pega o custo unitário de cada item e joga para dentro de cada linha de venda do mês. O custo variável dela é o somatório do custo das vendas realizadas — nada mais.

Se a clínica não tem lucro na DRE gerencial, o problema é estrutural, e tem três saídas possíveis: reduzir custo, aumentar muito o faturamento ou corrigir a precificação. Na prática, a terceira é a mais comum. Essa DRE é a única que responde se o que a clínica vende, do jeito que vende, pelo preço que cobra, dá lucro.

O preço de entrada dessa DRE é a ficha técnica. Sem saber quanto custa cada protocolo, cada aplicação e cada procedimento, não existe DRE gerencial — existe fluxo de caixa com outro nome. Ficha técnica é trabalhoso e é o trabalho que destrava todo o resto.

O que a DRE financeira mostra?

Onde o lucro está parado. A DRE financeira apura o custo pelo volume de compra do mês, e precisa incluir o que foi comprado e ainda não foi pago — se a clínica comprou um lote e parcelou em dez boletos, o valor total da compra entra, não a parcela. Se entrar só a parcela, não é DRE, é fluxo de caixa.

Quando a clínica compra mais do que consome, a DRE financeira fica pior que a gerencial, e a leitura é direta: parte do lucro daquele mês está em estoque. Isso explica o modelo de negócio lucrativo que nunca vê dinheiro em caixa. Nesse caso, não adianta mexer em precificação — o problema é compra desmedida ou necessidade de capital de giro.

O inverso é mais perigoso, e é o retrato do mercado de emagrecimento. Vamos supor que a clínica venda um protocolo de doze meses de um análogo de GLP-1. O paciente não leva a caixa toda embora: ele aplica a dose menor, depois aumenta, depois aumenta de novo. A clínica vende hoje muito mais do que precisa comprar hoje. Resultado: a DRE financeira aparece muito melhor que a gerencial, o saldo bancário cresce, o dono acha que é lucro e retira. O custo dos meses seguintes já foi vendido e ainda vai chegar.

A diferença entre essas três DREs, ela tá apenas na linha de materiais e medicamentos.

E é uma linha que pesa. Na mediana das clínicas que a gente acompanha, materiais e medicamentos somam 18% do faturamento, com clínicas em 15% e clínicas em 26%. Ler uma linha de 18% pelo critério errado é o suficiente para inverter o sinal do resultado do mês.

Para que serve a DRE de estoque?

Para achar o que não aparece em nenhuma das outras duas. A conta é estoque inicial mais compras do período menos estoque final — isso dá o consumo real. Esse consumo tem que bater com o custo variável da DRE gerencial: se a clínica vendeu cem aplicações, cem aplicações tinham que ter saído do estoque.

Quando não bate, e normalmente não bate, a diferença tem causa. São três, em ordem de frequência:

  • Ficha técnica errada. A clínica acredita que gasta uma quantidade por procedimento e gasta outra. Esse é o achado mais comum e o mais fácil de corrigir — e ele contamina a precificação inteira.
  • Fornecedor. Insumo difícil de contar que chega com alguns por cento a menos do que a nota diz, mês após mês.
  • Desvio. Produto que sai da clínica sem venda correspondente.

Duas notas práticas. A primeira: faça essa DRE olhando pelo menos um semestre. No mês isolado, a diferença se confunde com erro de contagem; no semestre, o padrão aparece. A segunda: a decisão que ela destrava costuma ser de contratação. Quando o desvio mensal de estoque é mais caro que o salário de um estoquista, a resposta é contratar o estoquista — e essa conta só existe se a clínica fizer a DRE de estoque.

Que decisão cada DRE destrava?

O déficit de cada uma tem causa diferente, e é isso que torna as três necessárias. Confundir as causas é tratar o sintoma errado.

  • Déficit na DRE gerencial: ou a clínica está rodando abaixo do ponto de equilíbrio, ou tem erro de precificação. A diferença entre as duas está na margem de contribuição. Se a margem de contribuição é saudável, a venda não dá prejuízo e o problema é volume — a clínica precisa vender mais. Se a margem de contribuição está apertada, é preço.
  • Déficit na DRE financeira: ineficiência de compra ou necessidade de capital de giro. É a situação clássica de operação com estoque. É também o motivo pelo qual nenhuma empresa distribui lucro todo mês — parte do lucro apurado precisa bancar o estoque dos meses seguintes. As empresas listadas em bolsa distribuem em maio o lucro do ano anterior, e não é por burocracia.
  • Déficit na DRE de estoque: problema externo à venda. Furto, fornecedor, ficha técnica.

As três juntas também respondem a pergunta que mais confunde dono de clínica: por que o saldo bancário subiu num mês de prejuízo. A gerencial diz se o modelo dá lucro. A financeira justifica o que aconteceu com o caixa. A de estoque confirma se o que foi apurado é real. O fluxo de caixa é consequência das três, não substituto de nenhuma.

Não é DRE ou fluxo de caixa, do mesmo jeito que não é exame de sangue ou exame de imagem. São análises diferentes e uma complementa a outra.

Pegue o seu último fechamento e responda duas perguntas: o custo de material que está ali é o que você vendeu ou o que você comprou? E ele bate com o que saiu do estoque? Se você não sabe responder, o que você tem não é uma DRE — é um extrato com cabeçalho novo.

VR
Vitor RehbeinTime bmo

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