Separar as contas da clínica das contas pessoais se faz com três movimentos, nessa ordem: uma conta bancária e um cartão que são só da clínica, um valor que sai da clínica para você em data fixa todo mês, e uma DRE que mostra separado quanto a clínica te paga por ser médico e quanto sobra para você como dono. Enquanto o cartão é o mesmo, não existe número da clínica nem número seu — existe um extrato misturado que não serve para decidir nada.
Essa é a dor mais comum de quem procura gestão, e ela aparece sempre com a mesma frase: o dinheiro entra, mas eu não tenho ideia do quanto é meu. O médico está numa roda de amigos e não sabe dizer quanto ganha. Não é falta de dinheiro. É falta de separação.
Por que misturar as contas esconde quanto você ganha?
Porque a conta misturada produz um número só, e esse número não responde nenhuma das perguntas que importam. Quando a escola do filho, o combustível, o almoço, o estoque de medicamento, o aluguel da sala e o salário da recepção saem todos do mesmo lugar, a clínica não tem custo fixo apurado e você não tem renda apurada.
O efeito prático é o dono rodar conforme entra em caixa. Ele olha o saldo, entende saldo como lucro, gasta esse dinheiro e sobe o custo de vida numa proporção desmedida. Quando vem um mês de baixa — e sempre vem —, a conta pessoal já está dimensionada pelo melhor mês da clínica. Aí a clínica empresta para o dono, ou o dono empresta para a clínica, e ninguém mais sabe de quem é o dinheiro.
Tem um segundo efeito, menos visível e mais caro: a despesa pessoal que passa pela conta da clínica entra na apuração como se fosse custo da operação. A clínica aparece mais caro do que é, a margem aparece menor do que é, e qualquer decisão de preço tomada em cima dessa leitura vai estar errada por um valor que ninguém consegue medir.
Quanto a clínica te paga como médico e quanto sobra para o dono?
São duas remunerações diferentes e elas precisam estar em duas linhas diferentes. O que você recebe por atender é custo da clínica, igual ao que ela paga a qualquer outro profissional. O que sobra depois de todos os custos, inclusive o seu repasse, é o lucro do dono. São dois dinheiros com naturezas opostas: o primeiro é previsível e proporcional ao que você produz, o segundo é resultado e varia com a gestão.
Nas DREs gerenciais da carteira, o repasse médico tem mediana de 31% do faturamento, variando de 25% a 39%. Esse percentual é custo, e precisa estar previsto na precificação de cada procedimento — se o repasse não entra na fórmula do preço, ele vai sair do lucro do dono sem que ninguém perceba.
Cara, então tu tá aceitando vender a tua hora pra sempre.
Quem não separa as duas remunerações descobre, anos depois, que nunca teve um negócio. Teve um emprego bem pago, com risco de empresário e sem a liberdade de nenhum dos dois. A separação é o que permite responder uma pergunta que muda a vida do dono: se eu contratasse alguém para atender no meu lugar, a clínica ainda daria lucro? Enquanto as contas estão misturadas, essa pergunta não tem resposta.
Como a retirada deve sair da conta da clínica?
Em data fixa, em valor combinado e por um caminho só. A regra operacional é simples: nada sai da conta da clínica para a sua vida pessoal fora dessas datas.
- Um valor fixo mensal, na mesma data. É o que te paga por atender e por dirigir o negócio, e é um custo que a clínica tem que suportar em mês ruim também.
- A distribuição de resultado em outro momento e em outra linha. Empresa não distribui lucro todo mês. As companhias abertas apuram o ano e distribuem depois — não por burocracia, mas porque resultado só existe quando o período fecha.
- Zero saque avulso. Cada retirada fora do combinado é uma informação que se perde. Se precisou de dinheiro fora da data, isso é um sinal de que o valor fixo está mal calibrado, e o lugar de corrigir é o planejamento, não o caixa.
- Cartão de crédito separado. Um cartão da clínica, um cartão seu. É a mudança mais simples da lista e a que mais rápido limpa a apuração.
Quanto deve ser esse valor fixo e quando a clínica pode distribuir lucro são duas outras perguntas, cada uma com a sua própria conta. O que este artigo resolve é o caminho: enquanto o dinheiro sair por qualquer porta, em qualquer dia, nenhum valor que você calcular vai se sustentar. E a parte fiscal — pró-labore, regime tributário, o que pode ser distribuído e como — se decide com o seu contador. Separação é gestão; enquadramento é técnica contábil, e as duas coisas não se misturam.
O que fazer com a despesa pessoal que já está na conta da clínica?
Não dá para apagar o passado, mas dá para isolar o presente em um mês. O trabalho é mecânico e cabe na recepção com supervisão sua.
Primeiro, extraia os últimos três meses do extrato e classifique cada saída em três grupos: custo da operação, remuneração do dono e saída não operacional. Saída não operacional é tudo aquilo que não tem nada a ver com atender paciente — e é justamente onde mora a despesa pessoal, o empréstimo a sócio, o carro, a reforma de casa.
Depois, olhe o tamanho desse terceiro grupo. Em muitas clínicas, a saída não operacional mensal é maior do que qualquer corte de custo que a operação suportaria. É por isso que enxugar a operação às vezes não resolve o aperto de caixa: o dinheiro não está vazando pela operação, está saindo pela porta do dono.
Por último, migre o que é pessoal para a sua conta pessoal, com a retirada bancando aquilo. Se a retirada não banca, você encontrou o número real do problema — e ele é um problema de dimensionamento de vida, não de clínica.
Como saber se a separação funcionou?
Tem um teste de uma pergunta. Diga em dois números, sem abrir planilha: quanto você recebeu da clínica por ter atendido no mês passado, e quanto sobrou para você como dono no mesmo mês. Se os dois números vêm na hora, está separado. Se vem um número só, ou se vem a frase "depende do que eu tirei", não está.
Tem um segundo teste, mais duro. Se você ficar trinta dias fora, a clínica continua te pagando o valor fixo? Uma operação separada paga o dono mesmo quando o dono não atende, porque o custo dele está dentro do preço do que a clínica vende. Uma operação misturada só paga enquanto o dono estiver na cadeira.
E vale lembrar por que isso importa além da planilha: não adianta um CNPJ com boa performance financeira se o CPF por trás não consegue arcar com a própria vida. Separar as contas não é organização por estética. É o que permite saber, pela primeira vez, qual dos dois está sustentando o outro.
Comece hoje pelo movimento mais barato: abra o extrato do mês passado e marque com um X toda saída que é sua e não da clínica. Soma. Esse valor é o que você está retirando sem ter decidido retirar — e é o primeiro número da sua separação.
bmo


