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Como separar as contas da clínica das contas pessoais?

Vitor Rehbein··6 min de leitura
Vitor Rehbein de terno claro falando no palco com microfone de lapela

Separar as contas da clínica das contas pessoais se faz com três movimentos, nessa ordem: uma conta bancária e um cartão que são só da clínica, um valor que sai da clínica para você em data fixa todo mês, e uma DRE que mostra separado quanto a clínica te paga por ser médico e quanto sobra para você como dono. Enquanto o cartão é o mesmo, não existe número da clínica nem número seu — existe um extrato misturado que não serve para decidir nada.

Essa é a dor mais comum de quem procura gestão, e ela aparece sempre com a mesma frase: o dinheiro entra, mas eu não tenho ideia do quanto é meu. O médico está numa roda de amigos e não sabe dizer quanto ganha. Não é falta de dinheiro. É falta de separação.

Por que misturar as contas esconde quanto você ganha?

Porque a conta misturada produz um número só, e esse número não responde nenhuma das perguntas que importam. Quando a escola do filho, o combustível, o almoço, o estoque de medicamento, o aluguel da sala e o salário da recepção saem todos do mesmo lugar, a clínica não tem custo fixo apurado e você não tem renda apurada.

O efeito prático é o dono rodar conforme entra em caixa. Ele olha o saldo, entende saldo como lucro, gasta esse dinheiro e sobe o custo de vida numa proporção desmedida. Quando vem um mês de baixa — e sempre vem —, a conta pessoal já está dimensionada pelo melhor mês da clínica. Aí a clínica empresta para o dono, ou o dono empresta para a clínica, e ninguém mais sabe de quem é o dinheiro.

Tem um segundo efeito, menos visível e mais caro: a despesa pessoal que passa pela conta da clínica entra na apuração como se fosse custo da operação. A clínica aparece mais caro do que é, a margem aparece menor do que é, e qualquer decisão de preço tomada em cima dessa leitura vai estar errada por um valor que ninguém consegue medir.

Quanto a clínica te paga como médico e quanto sobra para o dono?

São duas remunerações diferentes e elas precisam estar em duas linhas diferentes. O que você recebe por atender é custo da clínica, igual ao que ela paga a qualquer outro profissional. O que sobra depois de todos os custos, inclusive o seu repasse, é o lucro do dono. São dois dinheiros com naturezas opostas: o primeiro é previsível e proporcional ao que você produz, o segundo é resultado e varia com a gestão.

Nas DREs gerenciais da carteira, o repasse médico tem mediana de 31% do faturamento, variando de 25% a 39%. Esse percentual é custo, e precisa estar previsto na precificação de cada procedimento — se o repasse não entra na fórmula do preço, ele vai sair do lucro do dono sem que ninguém perceba.

Cara, então tu tá aceitando vender a tua hora pra sempre.

Quem não separa as duas remunerações descobre, anos depois, que nunca teve um negócio. Teve um emprego bem pago, com risco de empresário e sem a liberdade de nenhum dos dois. A separação é o que permite responder uma pergunta que muda a vida do dono: se eu contratasse alguém para atender no meu lugar, a clínica ainda daria lucro? Enquanto as contas estão misturadas, essa pergunta não tem resposta.

Como a retirada deve sair da conta da clínica?

Em data fixa, em valor combinado e por um caminho só. A regra operacional é simples: nada sai da conta da clínica para a sua vida pessoal fora dessas datas.

  • Um valor fixo mensal, na mesma data. É o que te paga por atender e por dirigir o negócio, e é um custo que a clínica tem que suportar em mês ruim também.
  • A distribuição de resultado em outro momento e em outra linha. Empresa não distribui lucro todo mês. As companhias abertas apuram o ano e distribuem depois — não por burocracia, mas porque resultado só existe quando o período fecha.
  • Zero saque avulso. Cada retirada fora do combinado é uma informação que se perde. Se precisou de dinheiro fora da data, isso é um sinal de que o valor fixo está mal calibrado, e o lugar de corrigir é o planejamento, não o caixa.
  • Cartão de crédito separado. Um cartão da clínica, um cartão seu. É a mudança mais simples da lista e a que mais rápido limpa a apuração.

Quanto deve ser esse valor fixo e quando a clínica pode distribuir lucro são duas outras perguntas, cada uma com a sua própria conta. O que este artigo resolve é o caminho: enquanto o dinheiro sair por qualquer porta, em qualquer dia, nenhum valor que você calcular vai se sustentar. E a parte fiscal — pró-labore, regime tributário, o que pode ser distribuído e como — se decide com o seu contador. Separação é gestão; enquadramento é técnica contábil, e as duas coisas não se misturam.

O que fazer com a despesa pessoal que já está na conta da clínica?

Não dá para apagar o passado, mas dá para isolar o presente em um mês. O trabalho é mecânico e cabe na recepção com supervisão sua.

Primeiro, extraia os últimos três meses do extrato e classifique cada saída em três grupos: custo da operação, remuneração do dono e saída não operacional. Saída não operacional é tudo aquilo que não tem nada a ver com atender paciente — e é justamente onde mora a despesa pessoal, o empréstimo a sócio, o carro, a reforma de casa.

Depois, olhe o tamanho desse terceiro grupo. Em muitas clínicas, a saída não operacional mensal é maior do que qualquer corte de custo que a operação suportaria. É por isso que enxugar a operação às vezes não resolve o aperto de caixa: o dinheiro não está vazando pela operação, está saindo pela porta do dono.

Por último, migre o que é pessoal para a sua conta pessoal, com a retirada bancando aquilo. Se a retirada não banca, você encontrou o número real do problema — e ele é um problema de dimensionamento de vida, não de clínica.

Como saber se a separação funcionou?

Tem um teste de uma pergunta. Diga em dois números, sem abrir planilha: quanto você recebeu da clínica por ter atendido no mês passado, e quanto sobrou para você como dono no mesmo mês. Se os dois números vêm na hora, está separado. Se vem um número só, ou se vem a frase "depende do que eu tirei", não está.

Tem um segundo teste, mais duro. Se você ficar trinta dias fora, a clínica continua te pagando o valor fixo? Uma operação separada paga o dono mesmo quando o dono não atende, porque o custo dele está dentro do preço do que a clínica vende. Uma operação misturada só paga enquanto o dono estiver na cadeira.

E vale lembrar por que isso importa além da planilha: não adianta um CNPJ com boa performance financeira se o CPF por trás não consegue arcar com a própria vida. Separar as contas não é organização por estética. É o que permite saber, pela primeira vez, qual dos dois está sustentando o outro.

Comece hoje pelo movimento mais barato: abra o extrato do mês passado e marque com um X toda saída que é sua e não da clínica. Soma. Esse valor é o que você está retirando sem ter decidido retirar — e é o primeiro número da sua separação.

VR
Vitor RehbeinTime bmo

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